Não deixa de ser estranho, quando estamos longe, ouvir alguém dizer:
- É europeia.
- É europeia.
Les véritables semeurs de paix font peu de bruit.

La democratie n’est pas quelque chose que vous recevez des autres.
Vous devez la construire vous-même.
Aung San Suu Kyi
(prémio Nobel da Paz em 1991)

Boris Cyrulnik in Autobiographie d’un Épouvantail

- Bonzzzzzur….
(bonjour)
- Não.
- Não, eu não quero passar por este portão. Isto não é uma escola é uma prisão.
O próprio portão, a cor do edifício… É estranho, particularmente na Índia, mas as prisões e as escolas são pintadas da mesma cor e são ambas feitas com tijolos vermelhos. É muito dífícíl saber se o edifício é uma prisão ou uma escola.Talvez em tempos um brincalhão tenha resolvido pregar uma partida, mas resultou na perfeição.
Eu observei:
- Olha para a escola, tu chamas-lhe uma escola? Olha para este portão! E tu estás aqui para me obrigares a entrar durante quatro anos no mínimo.
- Tu tens de ter educação - exclamou ele.
- Que género de começo é este? Eu nem sequer sou livre de dizer sim ou não. Tu chamas a isto educação? Mas se queres, por favor, nem me perguntes: tens aqui a minha mão, arrasta-me lá para dentro. Pelo menos eu vou ter a satisfação de nunca ter entrado nesta instituição horrorosa por mim mesmo. Tu podes impor-me a tua decisão, porque eu tenho de depender de ti pela comida, pela roupa, pelo abrigo e por tudo. Naturalmente tu estás numa posição privílegiada.
Nunca fui para a escola de boa vontade. E fiquei feliz por ter sido arrastado lá para dentro, por nunca ter ido por mim mesmo, de livre e espontânea vontade. A escola era realmente feia - todas as escolas são feias. A educação acaba sempre por ser feia.
E qual foi a primeira coisa que me sucedeu na escola?
A primeira coisa foi conhecer o professor da minha primeira classe. Ele era o mestre e ia-me ensinar - quero dizer professor, porque na Índia os professores são chamados mestres.
Ele não era apenas feio; tudo o que fazia era feio. E claro que no meu primeiro dia de escola alguma coisa estava destinada a acontecer. Ele costumava castigar as crianças sem piedade.
Ele estava a ensinar aritmética. Eu sabia um pouco, por isso estava a olhar pela janela, para a bela figueira a brilhar ao sol. Não há nenhuma árvore que brilhe de forma tão bela ao sol, porque cada folha dança separadamente e toda a árvore se torna quase um coro - um conjunto de milhares de dançarinos e de cantores brilhantes, mas também independentes. Eu olhava para a árvore com as suas folhas a dançar na brisa e o sol a brilhar em cada folha e centenas de papagaios a saltarem de um ramo para o outro, a divertirem-se sem motivo nenhum. Ali, eles não tinham de ir à escola.
Estava eu a olhar para a janela quando o mestre Kantar se precipitou para mim e disse:
- É melhor acertares as coisas desde o princípio.
Eu exclamei:
- Concordo absolutamente com isso. Eu também quero pôr tudo como deve ser desde o princípio.
Ele perguntou:
- Porque é que estavas a olhar para a janela enquanto eu estava a ensinar aritmética?
Eu respondi:
- A aritmética tem de ser ouvida, não tem de ser vista. Eu não tenho de ver a sua linda cara, estava a janela para a evitar. No que respeita à aritmética, pode perguntar o que quiser; eu ouvi e já sei.
Ele interrogou-me e esse foi o princípio de um longo problema - não para mim, mas para ele. O problema foi o de eu responder correctamente. Ele nem podia acreditar e disse:
Quer estejas certo quer estejas errado, vou castigar-te na mesma, porque não é correcto olhar para a janela quando o professor está a ensinar.
Chamou-me para ir até junto dele. Tirou uma caixa de lápis da secretária. Eu tinha ouvido falar destes famosos lápis. Ele costumava pôr um desses lápis entre cada um dos nossos dedos e depois apertar as mãos com força, perguntando:
- Queres mais um bocadinha? Precisas de mais?
Olhei para os lápis e disse:
- Já ouvi falar desses lápis, mas antes de os pôr entre os dedos, lembre-se de que isso lhe vai custar muito caro, talvez até o seu emprego.
Ele riu-se. Posso dizer que era mesmo como um monstro num pesadelo a rir-se para nós.
- E quem é que me vai impedir? - quis saber ele.
- A questão não é essa. Eu quero fazer uma pergunta: é ilegal olhar pela janela quando se está a ensinar aritmética? E se eu sou capaz de responder às perguntas sobre o que estava a ser ensinado e estou pronto para repetir palavra por palavra, mesmo assim está errado olhar pela janela? Então porque é que fizeram uma janela num sala de aula? Com que propósito? Porque durante o dia está alguém a ensinar alguma coisa e uma janela já não é necessária durante a noite, quando não há ninguém para olhar lá para fora.
Tu és um provocador - disse ele.
- Exactamente, é verdade, e eu vou ao director para saber se é legítimo você castigar-me quando eu respondi correctamente.
E depois vou ao presidente do comité municipal que dirige esta escola. Amanhã venho com um comissário da polícia para que ele possa ver com os seus próprios olhos que tipo de práticas são usadas aqui.
Ele tremeu.
Eu posso não ver as paredes, mas não deixo escapar coisas quase microscópicas.
Eu fui, e o director afirmou:
- Eu sei que esse homem tortura as crianças. É ilegal, mas não posso dizer nada sobre isso porque ele é o professor mais antigo da cidade (…) meu rapaz, não te metas em sarilhos desnecessários. Ele vai torturar-te.
- Não é fácil - lancei eu. - Isto vai ser o princípio da minha luta contra a tortura. Eu vou lutar - e bati com o punho, claro que era apenas o punho de uma criança, na mesa dele e disse-lhe:
- Não me importo com a educação nem nada disso, mas tenho que me preocupar com a minha liberdade. Vocês têm de me mostrar o código educacional. Eu não sei ler e vocês vão ter de me mostrar se é ilegal olhar pela janela mesmo quando eu consigo responder correctamente a todas as perguntas.
Ele deu-me razão e disse:
- Venha comigo.
Ele levou o seu código educacional, um livro antigo que o acompanhava. Acho que nunca ninguém o leu.
O director disse ao mestre Kantar:
- É melhor não atormentar esta criança, porque parece que isso se pode voltar contra si.
Mas o mestre Kantar tornou-se ainda mais agressivo e violento.
Fui ter com o comissário da polícia. Era um homem encantador.
Ele disse:
- É ilegal torturar, mas eu não posso fazer queixa porque tenho medo que ele chumbe o meu filho. Por isso é melhor deixá-lo ir torturando.
Então fui a correr para ver o presidente do comité municipal, que revelou ser um merdas. Ele disse-me:
- Eu sei. Não se pode fazer nada quanto a isso. Vais ter de viver com isso, vais ter de aprender uma maneira de o tolerar.
Eu respondi, e lembro-me exactamente das minhas palavras:
- Eu não vou tolerar nada que esteja mal para a minha consciência.
- Se é esse o caso, eu não posso tratar dele. Vai ter com o vice-presidente, talvez ele possa ser mais útil.
E por isso eu devo agradecer àquele merdas, porque o vice-presidente mostrou ser o único homem de valor em toda aquela cidade.
Eu disse:
- Desculpe não ser um pouco mais velho. Além disso, eu não tenho educação nenhuma, mas tenho de me queixar deste homem, do mestre Kantar.
Ele disse:
- Eu tinha ouvido rumores, mas porque é que ninguém se queixou?
- As pessoas têm medo de que os filhos sejam ainda mais torturados - respondi eu.
- Tu não tens medo?
- Não, porque estou disposto a chumbar.
Não te preocupes. Esse fulano deve ser punido.; de facto, o serviço dele terminou. Ele candidatou-se a um prolongamento, mas não lho vamos dar.
Tornámo-nos amigos, e essa amizade durou até à morte dele.
Mas esse primeiro dia de escola revelou-se como sendo o princípio de muitas, muitas, muitas coisas…

OSHO in Autobiografia de Um Místico Espiritualmente Rebelde
Conhece a diferença subtil entre um mestre e um professor? O mestre compreendeu e transmite o que compreendeu. O professor recebeu aquilo que alguém compreendeu e transmite esse conhecimento, intacto, mas ele próprio não compreendeu. (…); eles até tocam nos pés daqueles que não alcançaram o conhecimento, mas que pelo menos transmitem o conhecimento dos mestres às massas.
Autobiografia OSHO
Que cheirinho a leite creme! - dizia eu.
Pouco faltou para que ficasse de lágrima ao canto do olho lembrando-me daquele último toque que a minha bisavó ou mãe davam com um ferro pequenino queimando o acúçar no topo do doce.
De tão surpreendida que estava resolvi abrir a porta do quarto para sentir mais de perto aquele cheirinho de doce concluído. Curiosamente quanto mais julgava que me aproximava da obra de arte mais o cheiro se afastava, ou seja, estava mais perto antes de ter aberto a porta.
Fui, então, à janela quase certa de que algum vizinho mais calorento estaria com o leite creme exposto no parapeito da sua janela. Nada!
De onde viria tão saboroso cheirinho?
Às vezes quando tenho os olhos cansados parece que vejo uma espécie de fumaça, e disse:
-”Vou-me deitar, estou na fase de começar a ver fumaça…”
Como o meu computador não anda nada, nada bom (só para escrever esta historinha já cliquei o quintúplo das vezes que seriam necessárias) resolvi cheirá-lo.
E para ter a certeza que não era dali que vinha o cheiro, que a pouco e pouco se ia revelando como não sendo de leite creme, fui movimentando o computador de um lado para o outro até esclarecer o caso.
Embora ainda de água na boca e com a infância a bater à porta, foi na cama que descobri o
edredon a ser comido pela boca duma lâmpada de halogénio qual leite creme.
O prejuízo não é nada agradável, mas mais desagradável ainda é que não estou em casa.
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